Escrito por: Dr. Leonardo Lo Duca / @drleonardoloduca
Ansiedade é um sentimento vago e desagradável de medo e apreensão, caracterizado por tensão ou desconforto derivado de antecipação de perigo. Mas como será que o tratamento da ansiedade por meio da hipnose é visto pela comunidade científica?
Para começar, entenda uma coisa:
Todo processo tende a ter seu início na primeira infância, quando determinadas informações vão sendo armazenadas na memória e funcionam como uma forma de proteção para o indivíduo no decorrer da vida.
Sendo assim, estudos retrospectivos sugerem que a presença de ansiedade na infância é um fator de risco para o desenvolvimento de diversos transtornos de ansiedade, como, o transtorno de pânico.
Como vivência universal, a ansiedade é um estado emocional humano, e como tal, é listada entre estes estados, assim como o amor, o ódio, a raiva, a alegria etc. Ela é composta por fatores emocionais/comportamentais e fisiológicos, e o indivíduo pode manifestar sensação de medo, insegurança, apreensão, pensamento catastrófico etc.
Diferentemente dos adultos, crianças podem não reconhecer seus medos como exagerados ou irracionais, especialmente as menores. Esse comportamento irá refletir na idade adulta.
A ansiedade e o medo passam a ser reconhecidos como patológicos quando são exagerados, desproporcionais em relação ao estímulo, ou qualitativamente diversos. Vamos explorar esse assunto mais a fundo a partir de agora!
Dados importantes
A maneira prática de se diferenciar ansiedade normal de ansiedade patológica é basicamente avaliar se a reação ansiosa é de curta duração, autolimitada e relacionada ao estímulo do momento ou não.
Assim, os transtornos ansiosos são os quadros comuns tanto em crianças quanto em adultos, com uma prevalência estimada durante o período de vida de 9% e 15% respectivamente.
Nas crianças e adolescentes, os transtornos ansiosos mais frequentes são o transtorno de ansiedade de separação, com prevalência em torno de 4%. O transtorno de ansiedade excessiva ou o atual TAG (2,7% a 4,6%) e as fobias específicas (2,4% a 3,3%). A prevalência de fobia social fica em torno de 1% e a do transtorno de pânico (TP) 0,6%.
Assim, a distribuição entre os sexos é equivalente, exceto fobias específicas, transtorno de estresse pós-traumático e transtorno de pânico com predominância do sexo feminino.
Por isso a causa dos transtornos ansiosos é muitas vezes desconhecida e provavelmente multifatorial, incluindo fatores hereditários e ambientais diversos. Entre os indivíduos com esses transtornos, o peso relativo dos fatores causais pode variar.
Aliás, desde o final do século passado e início do atual, a humanidade vive sob uma pandemia de ansiedade. Seja pela velocidade de informação, seja pela mudança no estilo de vida. Porém, com o curso da pandemia do Coronavírus, a necessidade do isolamento social, a mudança das rotinas familiares, intensificou esse processo tendo levado a exponenciação dos casos.
Do ponto de vista fisiológico a ansiedade é um estado de funcionamento cerebral em que ocorre ativação do eixo hipotálamo-hipófise-adrenal (HPA), acarretando sintomas neurovegetativos, tais como insônia, taquicardia, palidez, aumento da perspiração, tensão muscular etc.
Neurofisiologia
Estas alterações são sempre adaptativas e visam ao maior grau de sucesso do indivíduo, além de estarem ligadas à herança genética. Do ponto de vista biológico, a ansiedade é um estado do funcionamento cerebral que está ligado a contextos ambientais, relacionados a eventos reforçadores. Esta percepção é comparada com familiaridades estocadas na memória e ativam sistemas cerebrais associados ao sistema de fuga/luta ou sistema cerebral de defesa.
Assim, diferentes vias de neurotransmissão fazem parte dos mecanismos de mediação da ansiedade neste sistema, em especial, os sistemas GABAérgico e serotoninérgico assim como os dopamínicos, neuropeptidícos, entre outros.
Atualmente, a estrutura cerebral chave subjacente à ansiedade seria a amígdala, que avalia a natureza e intensidade da ameaça, atribuindo a ela conotação afetiva. Há uma grande importância no papel desempenhado pela amígdala, no condicionamento da ansiedade e na memória emocional, havendo assim uma associação entre emoção e memória.
Também é conhecida por sua importância para o aprendizado e memória emocional e esse papel afeta diversos comportamentos emocionais relacionados ao aprendizado, a memória, a respostas sociais e vigilância.
A amígdala e o córtex pré-frontal regulam as respostas, as emoções e poderiam ser marcadores na mediação de risco genético. Já o funcionamento do sistema Septo-Hipocampal detecta um conflito entre os objetivos simultaneamente disponíveis. E para resolvê-lo, o sistema aumenta um peso dado à informação negativa em áreas de processamento.
Sendo que esse aumento na informação afetivamente negativa produziria o aumento de ansiedade em algumas tarefas. Isso reduz o efeito de interferência da memória em outras áreas e seria facilitado por aferências nervosas mediadas pelos neurotransmissores noradrenalina e serotonina, proveniente do tronco cerebral, onde atuariam os tratamentos medicamentosos.
Os comportamentos de defesa
Nas últimas décadas ocorreu um progresso significativo no conhecimento da estrutura dos sistemas neurais relacionados com os estados de ansiedade. Pesquisas pré-clínicas demonstraram que os estados de ansiedade teriam relação com os mecanismos de defesa dos animais diante de perigo.
Estes comportamentos de defesa envolvem dois sistemas cerebrais que estariam envolvidos na ansiedade: o Sistema Cerebral de Defesa (SCD) e o Sistema de Inibição Comportamental (SIC). O SCD é constituído por estruturas nervosas, longitudinalmente organizadas, formado pela Amígdala, Hipotálamo Medial (HM) e Matéria Cinzenta Periaquedutal (MCP).
Assim, a amígdala possui conexões nervosas com o neocórtex, com estruturas límbicas mais profundas e funciona como interface sensório-emocional entre elas, avaliando e classificando o tipo e grau do estímulo. O resultado é transmitido ao HM e MCP e esta então, seleciona e organiza as reações comportamentais e fisiológicas de defesa apropriadas.
Já o HM regula o funcionamento da hipófise que, por meio da secreção do hormônio adrenocorticoprópico (ACTH) estimula as glândulas suprarrenais a secretar glicocorticóides, como cortisol, norepinefrina e epinefrina. Por isso, com as situações de ameaça geralmente necessitam de atividade vigorosa (luta ou fuga) a ativação do córtex adrenal e do sistema nervoso autônomo. Ao levarem a liberação de glicocorticóides, cujas ações nos tecidos-alvos são catabólicas, ajudarão a promover a mobilização de fontes de energia do corpo para enfrentamento da situação.
Sistema de Inibição Comportamental
O SIC tem como principal substrato neural o sistema septohipocampal. A ativação deste sistema por sinais condicionados de punição ou frustração, estímulos ameaçadores ou situações novas provoca inibição de qualquer movimento que o animal esteja realizando, aumento no nível de vigilância, de atenção e preparo para ação vigorosa.
Se o estímulo atual é compatível com o esperado, então o sistema permanece no modo de “checagem” e o controle comportamental não é exercido pelo SIC. Se o estímulo atual não é compatível com o esperado, o SIC opera no modo de “controle” que gera a inibição comportamental, acompanhada do aumento de atenção ao meio e da vigilância em direção aos estímulos potencialmente.
Já o papel da serotonina na regulação do comportamento de defesa e consequentemente na ansiedade parece ser duplo: os sinais de perigo estimulariam o sistema de defesa por meio da amígdala e ativariam neurônios serotoninérgicos situados nos núcleos dorsais da rafe. Assim, isso faz com que inervam a amígdala e a matéria cinzenta periaquedutal, facilitando a defesa na primeira e inibindo nesta última.
Em termos de emoções vivenciadas a serotonina aumenta a ansiedade, atuando na amígdala, enquanto contém o pânico, com atuação na matéria cinzenta periaquedutal. Neste sentido, considerando a complexidade do sistema serotoninérgico, é pouco provável que se possa atribuir à serotonina um papel unitário na ansiedade.
Já o GABA por ser um neurotransmissor encontrado em todo o sistema nervoso central e exerce uma ação inibitória sobre neurônios serotoninérgicos dos núcleos dorsais da rafe, da matéria cinzenta periaquedutal e do sistema extrapiramidal. Assim, esta distribuição abrangente estes neurônios inibitórios funcionam como controladores do sistema nervoso, garantindo uma ação moderada dele.
Esse funcionamento faz parte de um sistema cerebral denominado: sistema límbico.
O Modelo de Mente
O modelo de mente proposto por Gerald Kein comtempla as estruturas cerebrais supracitadas.
- O inconsciente seria representado pelas estruturas do tronco cerebral, onde tem a função do sistema nervoso autônomo.
- O consciente representado principalmente pelo neocortex.
- E o subconsciente, representado pelo sistema límbico, em especial, as amígdalas.
Tratamento
Considerando a fisiopatologia da ansiedade, fica evidente que uma vez controlado a ação do sistema límbico, é possível controlar o transtorno de ansiedade. Como citado acima, memórias armazenadas nas amigdalas reagem quando estimuladas, causando manifestações muitas vezes desagradáveis.
A hipnoterapia age no subconsciente, reprogramando conceitos e memórias.
Através da hipnoterapia é possível ressignificar essas memórias, oferecendo ao indivíduo a possibilidade de assumir o controle da vida e não sofrer com o transtorno de ansiedade, além de muitos outros transtornos relacionados a fatores emocionais.
Dessa forma, o tratamento é constituído por uma abordagem multimodal, que inclui orientação, terapia cognitivo-comportamental, psicoterapia dinâmica, uso de psicofármacos, intervenções familiares, porém, principalmente a hipnoterapia, que atua na causa do problema e não apenas nos sintomas.
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Dr. Leonardo Lo Duca
Neurologia / Neurocirurgião / Hipnoterapeuta OMNI
@drleonardoloduca